sábado, 26 de janeiro de 2013

Xerez de Palomino

Xerez de Palomino - microconto

Na Praça de Espanha em Madri todos buscam uma réstia de sol para eliminar o mofo do corpo no inverno. Isabel, madrilenha de nascimento, cumpria este ritual invariavelmente como todos da cidade. Sentava-se no mesmo banquinho para sentir o calor envolvente do sol e saborear o contraponto da brisa gelada desfazer o penteado de seus cabelos brancos. Era uma espécie de ponto de convergência de jovens e velhos. Os primeiros nos bancos e os jovens na grama namorando, estudando ou apenas dormindo.
Os velhos observavam tudo e todos e os jovens, pouco se importavam com, cachorros, pombas ou com os passos apressados dos burocratas dos órgãos públicos da capital.
Ela tinha uma admiração particular pelos jovens. Via neles a síntese da palavra ‘esperança’ que poderia ser evanescente se por lá continuassem vivendo. Para eles, pensava, em outras paragens  estavam reservadas infinitas escolhas, bem como um universo de pessoas que poderiam cruzar o caminho de sua existência. 
Ela própria não se sentia mais pertencente a este mundo, na medida em que todos que havia conhecido tinham partido. Ao longo de seus oitenta e sete anos, tornou-se uma mulher amarga por tantas negativas que a vida havia lhe reservado. Fatos difíceis para ela recordar como a morte de seus pais pelos paramilitares do Generalíssimo Franco. Mortes que ela presenciou ainda menina.
Seus pais não eram atuantes na contra revolução, mas apenas simpatizantes das forças internacionais que lutavam contra o ditador fascista. Isso bastou para que uma vizinha invejosa definisse seus destinos por meio de uma denúncia aos fascistas  resultando em duas balas em suas nucas. Um método corriqueiro para todos que se opunham a Franco. Foi assim com Lorca e muitos outros espanhóis da resistência onde seus corpos jamais foram encontrados. 
Era assim a Espanha de 1939. Para morrer bastava uma denúncia covarde e infundada para definir o destino de qualquer ser humano. Mortes estúpidas e cruéis que encerraram os anseios de uma Espanha socialista.
Hoje Isabel vivia em uma Espanha completamente diferente; moderna, opulenta da qual sempre desconfiou sobre quanto tempo que isso iria durar até que as o destino consagrado volvesse as coisas como antes.
Amarga, achava que a Espanha era uma terra amaldiçoada e que não tardaria para um novo caudilho, em uniformes ou paletós negros, retomasse o destino obscuro de sua terra.
Isabel, durante anos, seguiu perdendo todos que amou. Marido, irmãos, tias e amigos. Todos mortos à bala ou pelo próprio encargo da vida. 
Imaginava que se aqueles jovens soubessem de sua história e de sua premonição, não ficariam nem mais um segundo deitados sob o sol dessa terra amaldiçoada, renascida do sangue de compatriotas. Se eles soubessem, buscariam outro sol em terras estrangeiras, longe do ocre espanhol.
Isabel, levantou-se e com passos arrastados foi para casa buscar um dos únicos prazeres que a vida lhe permitiu. Subiu com dificuldade a velha escada e ofegante entro no antigo apartamento de seus pais, velho testemunho de seu passado. Sentou-se na poltrona rota e encheu um cálice de xerez de de uva palomino de ‘la Frontera’. Era o melhor momento do seu dia, quando aquela doce bebida dissolvia o amargor de sua vida.
Seria curioso saber a reação de Isabel se ela soubesse que seu xerez era, também, a bebida preferida de Franco.
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GRAVURAS

O gravado constitui uma das minhas principais formas de expressão. Fascinado pelos gravadores do expressionismo alemão, sempre imaginei alcançar a magia de reproduzir um desenho com a delicadeza de Otto Mueller (1874-1930) ou a crítica social de Grosz (1893-1959), Otto Dix (1891-1969), ou o próprio Ernst Ludwig Kirchner (1880–1938) fundador da Die Brücke * ( a ponte).
A forma gráfica definida pela gravura do expressionismo alemão não resultou, de maneira imediata, na tentativa de seguir a técnica. Ela se manifestou pelo Kiri -ê, no qual o artista realiza suas ilustrações por meio do gravado em papel. A técnica é originária da China onde é executada em papel de arroz e deve manter estrutura original do suporte.
Entretanto o que me interessou foi o resultado plástico obtido com a técnica, empregando papeis mais grossos e negros. A solução de superfícies e linha se assemelhava fortemente com as gravuras dos artistas alemães.

Em 1983 e 1987, realizei duas exposições com desenhos realizados com esta técnica no papel no Centro Cultural São Paulo e no Franz Café. Nesse período tentei a reproduzir os trabalhos por meio de serigrafia, os quais resultaram impressões surpreendentes. A partir de então, estas serigrafias passaram a me estimular a tentar uma gravação usando o mesmo método de impressão que utilizava para a xilogravura (impressão usando pressão por meio de uma colher sobre papel de arroz). Entretanto o sonho de usar papel como matriz, só veio se concretizar em 2008.
A técnica me fascinou uma vez que não era necessário grande recurso na compra de madeira ou goivas e, ao mesmo tempo, poderia ser praticada por qualquer pessoa. Para esta técnica bastava um bom estilete, um cartão (papel com 400g) e criatividade.
Evidentemente, a durabilidade da matriz de papel é muito menor que as demais matrizes convencionais. Entretanto, como já mencionei, é muito prática e com características expressivas particulares.
Tal como a xilogravura em cortes de topo ou de fio, a experiência com outros materiais, em decorrência de sua resistência ao corte das goivas, definem um resultado específico para a gravura. Algumas destas experiências podem ser vistas nas imagens abaixo.


*Grupo de artistas expressionistas alemães formado em1905 em Dresden

rosto de homem

rosto de homem
gravura com matriz de papel - 2008

homem

homem
Xilogravura - 2006

ribeirinha

ribeirinha
xilogravura - 1986

perfil

perfil
Xilogravura - 1984

mulher apoiada

mulher apoiada
gravura com matriz de papel - 2008

Sangue

Sangue
Foto Rogerio Bessa Gonçalves (2003) - Edifício Copan - Arq. Oscar Niemeyer - São Paulo

Balanço

Balanço
Foto Rogerio Bessa - 2004 - Museu Oscar Niemeyer - Curitiba

Foto Rogerio Bessa (2005) -Viaduto Sta. Efigênia - São Paulo

Foto Rogerio Bessa (2005) - São Paulo

Lilás

Lilás
Foto Rogerio Bessa - 2005 - Avenida São Luiz - São paulo

ontem

ontem
Foto Rogerio Bessa (2005) - São Paulo

sugar bread

sugar bread
Rio - 2008

copan

copan
Foto Rogerio Bessa (2005) - São Paulo